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O Fim da Gestão?



A pratica de gestão parece ter evoluído lentamente quando comparada às mudanças monumentais em tecnologia, estilo de vida e geopolítica que presenciamos nos últimos cinqüenta anos. Se um executivo dos anos 60 voltasse ao tempo real, ficaria extremamente impressionado com a flexibilidade da cadeia de suprimentos em tempo real e a necessidade de prestar assistência ao cliente 24 horas por dia, e descobriria que muitos dos rituais de gestão de hoje pouco mudaram em relação aos que comandavam a vida corporativa há uma ou duas gerações. Isso se deve pelo fato de que talvez tenhamos chegado ao fim da gestão. Talvez dominemos, até certo ponto, a ciência de organizar os seres humanos, alocar recursos, definir objetivos, traçar metas e minimizar os desvios das melhores práticas, fazendo com que a maioria dos problemas de gestão realmente difíceis já tenham sido decifrados. Ou não, talvez a gestão moderna ainda não atingiu o apogeu da eficácia e, em face dos desafios que vêm pela frente, não está no caminho certo. 

A dificuldade de encontrar os caminhos que levam à conquista na empresa, ou a subida de topo, perante a quantidade de caminhos que levam para baixo do topo, é uma situação muito desagradável na qual a gestão atual se encontra. Com a evolução da gestão desde a primeira metade do século XX, a tecnologia da gestão alcançou um topo de um penhasco próximo, que em vez de estar assentada no topo de uma conquista como o Everest, ela está descansando alegremente sobre um monte dos Apalaches, onde mesmo que seja alto, não é o topo de todos. De certa forma, ninguém pode contestar que a máquina da gestão moderna equivale a uma das maiores invenções da humanidade. No entanto, com o tempo, toda grande invenção, inclusive a gestão, percorre um caminho que leva do nascimento à maturidade e, ocasionalmente, à senescência. Novas invenções normalmente demoram um tempo para deslanchar. Quando os obstáculos iniciais são superados, o ritmo de aperfeiçoamento é acelerado, o conhecimento aumenta, e logo várias inovações redefinem o que é possível. Porém, inevitavelmente a lei dos rendimentos decrescentes entra em vigor em algum momento, e a taxa de progresso em relação ao esforço começa a cair, tornando mais difícil fazer avanços importantes.

Na realidade, a maior parte das técnicas e ferramentas essenciais da gestão moderna foi criada por pessoas nascidas no século XIX, não muito depois do fim da Guerra Civil Americana. Aqueles pioneiros intrépidos criaram descrições de cargos e métodos de trabalho padronizados. Fazendo um retrospecto dos últimos vinte ou trinta anos de história da gestão, talvez possamos apontar uma dúzia de inovações com a mesma dimensão das que estabeleceram as bases da gestão atual. Naturalmente, impõe-se a pergunta se realmente precisamos de uma nova curva “S”, e, se assim for, se existe alguma esperando para ser encontrada. Talvez devêssemos estar celebrando o fim da gestão ou talvez, depois de décadas de luta, não haja mais picos elevados para escalar nem novas curvas “S” para descobrir. Se a democracia ainda tem montanhas a escalar, cerca de 2.500 anos após seu nascimento na Grécia antiga, seria muita presunção supor que, depois de um único século de progresso, a gestão atual tenha esgotado seu potencial evolutivo, assim como seria insensato presumir que uma tecnologia que nos serviu de forma tão admirável durante o século XX seja adequada para atender as exigências do século XXI. Acontece que, a gestão atual nos legou uma série de enigmas desconcertantes, trade-offs preocupantes que exigem um pensamento ousado e abordagens originais. E quando olhamos para frente, defrontamo-nos com uma grande quantidade de novos problemas, situações aflitivas e dilemas que expõem as limitações de nossos processos e sistemas de gestão rotineiros.

O sucesso da evolução da gestão atual teve um alto preço para se estabelecer. A gestão moderna contribuiu muito, mas exigiu muito em troca, e continua a exigir. De certo modo, talvez agora seja a hora de renegociar o acordo. Devemos aprender a coordenar os esforços de milhares de pessoas sem criar uma hierarquia opressiva de administradores, mantendo o controle sobre os custos e construindo organizações em que a disciplina e a liberdade não sejam mutuamente exclusivas, e fazendo com que lutemos para transcender os trade-offs aparentemente inevitáveis, que foram o legado infeliz da gestão moderna. O ambiente que as empresas do século XXI enfrentam é mais volátil do que nunca, embora a prática de gestão possa não estar evoluindo tão rapidamente como antes, mas já gerou uma enorme quantidade de desafios gerenciais, muito diferentes daqueles que sobrecarregaram os nossos antepassados. 

Assim, à medida que o ritmo das mudanças se acelera, cada vez mais empresas encontram-se na contramão da curva da mudança. A desregulamentação e as novas tecnologias que diminuíram o papel das economias de escala estão reduzindo radicalmente as barreiras de entrada em uma grande variedade de setores. As empresas estão se vendo progressivamente envolvidas em “rede de valor” e “ecossistemas” sobre os quais têm apenas controle parcial. A digitalização de qualquer coisa não-patenteada constitui uma ameaça para as empresas que atuam na criação e venda de propriedades intelectuais. A internet está transferindo o poder de barganha dos fabricantes para os consumidores com grande rapidez. Os ciclos de vida da estratégia estão diminuindo, de forma que é possível reforçar um novo negócio com rapidez inusitada. E os custos de comunicação em queda livre e a globalização estão abrindo os setores para um grande numero de novos concorrentes que praticam preços ultra-baixos. Essas novas realidades exigem novos recursos gerenciais e empresariais, para que possamos prosperar em um mundo progressivamente inovador, fazendo com que as empresas tenham de ser tão estrategicamente adaptáveis como são operacionalmente eficientes. Esses são os desafios que devem ser enfrentados pelos inovadores de gestão do século XXI.

O DNA gerencial torna algumas coisas fáceis e outras praticamente impossíveis. A gestão atual não é apenas um conjunto de técnicas e ferramentas úteis, é um paradigma. Um paradigma é mais que uma forma de pensar, é uma visão de mundo, uma crença ampla e firmemente estabelecida sobre quais tipos de problemas vale a pena solucionar, ou não ainda solucionáveis. Somos todos prisioneiros de nossos paradigmas e como gestores, somos prisioneiros de um paradigma que coloca a busca da eficiência acima de qualquer outro objetivo, o que não chega a surpreender, já que a gestão moderna foi criada para resolver o problemas de ineficiência.

Embora seja impossível datar com precisão o nascimento da gestão moderna, a maioria dos historiadores situa Frederick Winslow Taylor próximo ao inicio da epopéia, e o considera o inovador da gestão mais influente do século XX. Taylor achava que um método empírico baseado em informações para o planejamento do trabalho produziria grandes ganhos de produtividade. Também sustentava que a eficiência provinha de “saber exatamente o que qualquer trabalhador façam, e depois asseguram que o façam do modo melhor e mais barato”. Taylor considerava que a administração podia ser transformada em uma “ciência verdadeira, fundamentada em leis, regras e princípios claramente definidos”. A contribuição de Taylor para o progresso econômico, e o da gestão em um amplo sentido, é evidenciada por mais de cem anos da sempre crescente produtividade de fatores. Max Weber, renomado sociólogo alemão e contemporâneo de Taylor, via a burocracia como o ponto mais alto da organização social, possibilitando aos dirigentes da organização, e àqueles que agem em relação a ela, um alto grau de avaliação de resultados. Para Weber, a organização ideal tem varias características distintivas, como a divisão do trabalho, organização de cargos, seleção de pessoas para cargos baseados na competência técnica e formação, distinção de donos da empresa e administradores e controle rígidos.

Atualmente, portanto, pouca coisa surpreenderia um gestor do século XXI. Embora Max Weber esteja morto a quase noventa anos, muito das características que ele defendia continuam sendo virtudes da gestão moderna. Embora talvez deploremos a “burocracia”, ela ainda constitui o princípio organizador de praticamente todas as empresas dos setores público e privado do mundo, inclusive a sua. De certa forma, nós improvisamos, fazemos correções temporárias e aperfeiçoamos. Criamos projetos e mecanismos de inovação, em vez de organizações que sejam inovadoras do topo à base, entre outras coisas. A verdade é que a maioria de nós é partidária do velho paradigma, ou seja, somos membros da classe burocrática, pois como os executivos, gerentes e supervisores, aprendemos a usar a tecnologia de gestão para realizar trabalho. No entanto, apesar de nossas reservas, sabemos que o verdadeiro progresso exige uma revolução. Você não poderá passar pela próxima curva “S” sem dar um salto, tendo de passar por cima de suas idéias despercebidas, das melhores praticas do mundo, das recomendações de todos os especialistas e de suas próprias duvidas. Taylor sabia que os avanços revolucionários exigiam longos saltos intelectuais. Em 1912, Taylor compareceu perante uma comissão do congresso e afirmou que a administração científica exigia nada menos que uma revolução mental. A exemplos de outros arautos do futuro é possível que Taylor tenha ido um pouco longe demais com sua retórica revolucionária, mas pouco de seus contemporâneos contestariam sua afirmação de que a administração científica representava uma estupenda quebra de precedentes.

Os desafios que encaram os líderes empresariais do século XXI são no mínimo industriais do mundo há cem anos. Obviamente estamos vinculados a um precedente, e a maioria de nós tem interesses pessoais no status quo da gestão. Mas se seres humanos puderem inventar a moderna organização industrial, então eles podem e devem reinventá-la. Assim, com toda certeza, não há muita coisa em um curso de MBA, best-seller sobre gestão ou programa de desenvolvimento de liderança que indique que há alternativas radicais à maneira como lidamos, planejamos, organizamos, motivamos e administramos neste momento, mas legítimos inovadores nunca se sujeitam à situação como ela é, em vez disso, sonham com a maneira como ela poderia ser.

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