Pesquisar

Estoque de Sentimentos: Futebol e ações estratégicas de clubes e organizações como forma de dispêndio de emoções

Por Lucas Margotti

Nos últimos anos tivemos nossos sentimentos ligados a diversas ações de empresas e demais organizações, as quais descarregam inúmeras informações do mundo e nos ditam como as coisas devem ser seguidas. Desde ações de marketing de novelas até clubes de futebol, somos incentivados a gastar nossas emoções em coisas que são supérfluas, incapazes de agregarem valores úteis para nós consumidores, apenas simbólicos.


Vemos constantemente que no futebol brasileiro, os eventos e o desenvolvimento das “coisas” acontecem por interesse de poucos e que desfavorecem muitos. Para quem acredita que futebol é bom para o jogador, não entende que por traz disso tudo, existem organizações e até mesmo pessoas, faturando muito com isso. Existem times que recebem centenas de milhões e ainda cria meios de usar a emoção do torcedor como algo a favor do clube. Infelizmente essa é a realidade do futebol brasileiro, porém não é o foco do entendimento desse estoque de sentimentos que são consumidos pelas organizações.

Quando adquirimos algo, diversos elementos de nosso emocional estão dinamizando essa relação. Nessas relações, não existe apenas dinheiro, mas sentimentos fortes capazes de influenciarem nosso comportamento. Nesse exemplo do futebol, temos um sentimento precioso que é torcer e outro que é gastar tempo e dinheiro com nosso clube. E no final, quem ganha com isso? Primeiramente o clube e posteriormente as marcas que apóiam e demais organizações ligadas ao futebol. Tudo é baseado em negócio. Quando um clube vende um jogador por milhões, esse dinheiro não vai para os torcedores, e sim para esses parceiros e ao clube. Muitos pensam de outra forma, mas futebol é um jogo político baseado em negócios. E os clubes que estão envolvidos nos esquemas mais eficientes na administração dos negócios, havendo em alguns casos negócios ilegais, estão sujeitos a serem campeões.

Em Administração, o futebol brasileiro é um dos sistema mais complexo e lucrativo de negócio e o meio mais propício para lavagem de dinheiro e corrupção. O faturamento é oriundo das ações de marketing que influenciam o torcedor ao dispêndio de sentimentos e dinheiro ao clube. E diversas empresas buscam apoiar esses clubes como forma de aumentarem o faturamento a partir da exposição da marca, ligando-a aos clubes e aos jogadores. Outro meio de influenciar o sentimento do torcedor. Assim, dentro do futebol, os clubes mais fortes são os que possuem mais torcedores. Portanto, não há problema em considerar que o torcedor, na realidade, é um cliente do clube. Sem o torcedor, o clube não consegue ser competitivo. Quanto mais torcedores, mais recursos serão investidos no clube, por meio de materiais esportivos, ingressos, ou quaisquer materiais ligados à marca. E quanto mais torcedores, mais capital será investidos pelas empresas que desejam usar a marca atrelada ao clube. Tal fato é capaz de expandir significativamente a marca da empresa quando ligada a um clube, principalmente se for um clube de sucesso.

Dentro dessa concepção, é possível perceber que o futebol brasileiro desde sempre procurou trabalhar com os sentimentos dos torcedores, como forma de agregarem valores – simbólicos – conduzindo os torcedores a compartilharem suas emoções em algo que não promovem qualquer desenvolvimento social, intelectual ou espiritual nos mesmo. O foco no futebol brasileiro se deve pelo fato de estar ligado fortemente à política brasileira e a demais organizações e indivíduos públicos. Na realidade tal fato acontece em todos os clubes oficiais. Diversos dirigentes de clubes estão diretamente ligados à política nacional e esse fato faz com que a preocupação principal de políticos – e até da população brasileira em geral – esteja focada nos eventos esportivos e não sociais. Bilhões de reais são circulados no futebol todos os anos e boa parte dele favorece apenas à um pequeno grupo de empresários e dirigentes.

Ser torcedor é emocionante. Mas estamos gastando nossas emoções e preocupações com coisas que nada agregam para nós. A sociedade não ganha nada com os recursos investidos no futebol. O Brasil se preocupa com o campeonato brasileiro sem se preocupar com a educação brasileira, a qual não recebe 1% de investimentos públicos que deveria receber. O governo está investindo bilhões de reais nas obras da Copa do Mundo 2014, estagnando investimentos à população. Para se ter idéia, em alguns estados brasileiros, estão sendo construídos estádios que poderão chegar a R$ 1 bilhão (R$ 1.000.000.000,00 cada estádio e demais necessidades) mas que não há clubes para usufruírem após o evento. Ou seja, essas obras ficarão onerosas após o evento. E isso na esperança de que torcedores de várias partes do mundo gastem suas emoções e dinheiro no país. Caso haja sucesso, trará investimentos para o país, mas principalmente, para pequenos grupos de empresários. 

Portanto, dentro do futebol brasileiro, o torcedor torna-se uma ferramenta de receitas para o clube. Apenas um recurso capaz de influenciar e de proporcionar ao clube a oportunidade de expor a marca de parceiros em troca de mais investimentos. É um “jogo de cachorro grande”, onde as ações de publicidade são mais importantes do que os demais departamentos dos clubes, devido ao fato de poder influenciar os torcedores à compartilharem seus sentimentos com o clube. Para a realidade do Brasil, é uma perda de tempo, devido ao fato de haver maiores preocupações dentro da sociedade. Mas para o emocional dos brasileiros, é extremamente importante. O futebol passou a ser mais que um simples elemento cultural, sendo um importante meio dos brasileiros compartilharem emoções e demais sentimentos. Não há problema nenhum em ser um torcedor apaixonado pelo seu time. O pecado está em aproveitar essas emoções dos torcedores como forma de gerar ganhos financeiros para os clubes, e pior, na maioria das vezes sem retornar nada ao torcedor.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Leia mais