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Importância das mulheres no consumo de automóveis durante o período pós-guerra

Por Lucas Margotti
(Adaptação do estudo de Margareth Walsh - "WALSH, 2011")

Em meus estudos sobre consumo/consumidores de automóveis, tive acesso a um trabalho de Margareth Walsh, da Nottingham University (UK) que me chamou muito a atenção. Em uma de suas últimas publicações (Gender and Automobility: Seeling cars to American woman after the Second World War, 2011), ela destaca a importância das mulheres no consumo de automóveis no período pós-guerra. Por ser o artigo uma excelente publicação e até interessante por mostrar um paradoxo do que a sociedade supõe (mulheres dominantes na direção desde meados do século XX), nada melhor que extrair alguns trechos de sua abordagem em minha análise sobre o artigo e publicar no Tutor Executivo. É um trabalho muito interessante pois, conforme dito, examina o consumo de automóveis americanos, com foco no segmento demográfico "mulheres", por meio de materiais, anúncios e fotografias dessas industrias na época de 1945 a 1980.
 


Antes da Segunda Guerra Mundial, muitos americanos não dispunham de automóveis, principalmente a classe trabalhadora. Mas após o período da guerra, iniciou o período chamado de “Frenesi de automóveis dos anos 1950”, quando as fabricantes expandiram sua produção a partir de 1940 para atender a demanda reprimida. Isso fez que os registros de automóveis aumentassem significativamente, acompanhada pelas licenças para os condutores. Porém, somente a partir de 1963 que o governo notou a existência de condutoras mulheres, que eram anteriormente observadas ao acaso. A partir de 1950, muitas donas-de-casa suburbanas conseguiram sua licença para conduzir como forma de executar suas responsabilidades domésticas. Assim, outras donas-de-casa e mulheres que trabalhavam fora acompanharam essa tendência, até licença para conduzir automóvel se tornar rito de passagem para as adolescentes. Dessa forma era cada vez mais comum observar mulheres conduzindo.

O desejo das donas-de-casa pelo acesso ao carro só poderia ser completado através de carro compartilhado ou pelo segundo carro da família (incentivada pelo fabricante como uma concepção de família moderna). Muitas famílias começaram a acreditar que dois carros eram essenciais, já que um deveria ser atribuído às esposas, responsáveis em gerenciar suas tarefas domésticas, além de servir também para seus filhos adolescentes.


Nas décadas de 1950 e 1960 os fabricantes e suas publicidades mantiveram uma mentalidade tradicional que observava as mulheres como sinônimo de beleza, estilo e como sendo um auxiliar. Consideradas como acessórios de modas, elas eram vistas como uma forma de melhorar as vendas, já que elas interessavam mais pelas cores, estofados e estilos do que pelos mecanismos de condução e manutenção dos veículos. Essa foi a concepção entendida pelos fabricantes. Mas o fato é que as mulheres não tinham condições de responder a um veículo em razão de sua atratividade feminina e, de fato, as mulheres não estavam preocupadas com acessórios criados para elas. Sua necessidade em relação ao automóvel era funcional, com propósitos simples e voltados para o lar e trabalho. Os anúncios na época mostravam mulheres dependentes de automóveis para realização de suas rotinas e responsabilidades domésticas. Estilo nunca foi abandonado, mostrando mulheres confiantes e em sintonia com a moda.Em alguns estados, ensino de condução tinha se tornado parte do currículo escolar e mulheres cada vez mais novas estavam dirigindo. Além disso, mais mulheres estavam conquistando ocupações profissionais e consumindo. 

Dessa forma, propagandas com a imagem de mulheres não eram mais atrativos para comprar automóveis, já que o sexo feminino estava envolvido como consumidor. Assim como os homens queria carros que indicavam sua independência e potencial mobilidade ascendente, as mulheres também buscavam esses valores. De fato, não havia um mercado automotivo feminino. Havia vários mercados, com mulheres diferentes preferindo modelos diferentes de automóveis.


A partir da década de 1960, as mulheres foram ganhando maior acesso a diversas oportunidades por meio de leis de direitos civis, além de suas capacidades em exercer suas próprias vidas. Igualmente importante, se não mais importante, na definição da participação feminina na era do consumo de massa foi o aumento da obtenção de emprego das mulheres. Os fabricantes de automóveis foram lentos em reconhecer as mudanças da posição feminina na economia americana e na sociedade e suas consequências para as atividades do mercado na década de 1970, embora as informações estivessem disponíveis nos meios de publicidade.

Mulheres foram exclusivamente responsáveis por comprar um em cada três carros e elas foram mais propensas que homem para participar em qualquer decisão compartilhada que consistiu mais da metade de todas as decisões. Assim, mulheres representaram quase metade das decisões de compra de automóveis nos Estados Unidos. Empresas americanas de automóveis foram devagar para perceber as mudanças no mercado, mas suas rivais estrangeiras, empresas alemãs e japonesas, foram mais abertas em termos de vendas de veículos para quem quisesse comprá-los. Esses fabricantes estrangeiros passaram a ouvir as mulheres e seus interesses e demonstraram que eles sabiam que mulheres estavam se tornando participantes plenas na economia americana.

Confiança, espaço, segurança e economia poderiam ser defendidos como interesses femininos devido às mulheres trabalhadoras com responsabilidades domésticas. Mas de fato, poderia ser também considerado como preocupações masculinas. No fim dos anos 1980, todos os fabricante e revendedores, que lentamente observaram as mudanças sociais, perceberam as mulheres como chave para o consumo de automóveis.


Durante a segunda metade do século XX as mulheres americanas se tornaram o maior mercado de vendas de automóveis. No período pós-guerra, elas ainda eram culturalmente definidas como esposas e mães dependentes. Para realizar suas tarefas domésticas e ter contato social, elas começaram a dirigir. Dessa forma, tanto outras mulheres que adquiriram suas licenças quanto a nova geração de mulheres como parte de um rito de passagem passaram a demandar por veículos. Sua crescente participação na força de trabalho forneceu recursos para que as mulheres comprassem seu próprio veículo, surgindo até mesmo legislação que protegessem mulheres de discriminação. Alguns fabricantes podem ainda considerar homens o principal comprador e revendedores podem ainda amparar potenciais clientes femininos, mas as estatísticas de vendas exige que ambos repensem sobre como eles segmentaram seus mercados. De fato, o automóvel já não era veículo de homem ou tecnologia masculina. Tornou-se uma máquina que todos podem conduzir desde que seja capacitado para isso e que tenha recursos para comprar. 

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