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Criatividade e Inovação superando antigas necessidades em Gestão e Processos Decisórios

Por Lucas Margotti

No atual cenário e contexto econômico, as organizações necessitam cada vez mais de dinamismo e novas abordagens de gestão para atuar de forma competitiva. A partir dessa premissa, a criatividade se torna crescentemente um diferencial competitivo e essencial para o sucesso. Partindo desse pressuposto, o objetivo desse artigo foi descrever a importância da criatividade no processo decisório das organizações, possibilitando o entendimento de suas funcionalidades quando aplicadas na organização.

Desde os primórdios da humanidade, a criatividade tem desempenhado um papel fundamental na concepção dos valores e atitudes do homem. A partir da necessidade de contemplar um desejo ou buscar um recurso não disponível, a criatividade surgia como uma forma alternativa para o alcance do objetivo esperado, satisfazendo a necessidade do indivíduo. Por isso, a criatividade é hoje descrita como uma peça fundamental na história da humanidade, que em toda sua evolução, os homens se apoiaram no desenvolvimento tecnológico como forma de ampliar suas chances de sobrevivência. 

A condução da criatividade é resultado da interação entre os pensamentos de uma pessoa e um contexto sociocultural, podendo ser considerada como um traço da personalidade humana. Segundo Alencar (1998), na antiguidade, sob o ponto de vista da filosofia, a criatividade era vista como um dom divino – parte da natureza humana – um estado místico de receptividade a algum tipo de mensagem proveniente das entidades divinas. As teorias filosóficas do mundo antigo sustentam que o indivíduo criador é um ser inspirado pela divindade, pressuposto cujo ícone é Platão, que declarou “ser o artista, no momento da criação, o agente de poder superior, perdendo o controle de si mesmo” (KNELLER, 1978). 

Porém, a criatividade já foi associada com uma concepção negativa, associada como loucura, ato impensado ou compensação aos desajustes e conflitos. Kneller (1978) defende que na antiguidade a criatividade seria como uma espécie de purgativo emocional que mantinha mentalmente são os homens. De fato, a criatividade pode ser representada de diversas maneiras. De acordo com Gardner (1999), todas as pessoas possuem um perfil criativo distinto. A variedade de concepções possibilita ao indivíduo a visão subjetiva do diferente, refletido em algo original. Sendo assim, a criatividade pode ser manifestada em todos os setores da vida, seja político, social ou científico, possibilitando uma variedade múltipla e diferenciada de conceitos, formados a partir de ideologias próprias, agregando-lhe utilidade e individualidade (JACOME, 2011). Sob o ponto de vista de Stanislavski (1996), a criatividade é resultado da interação entre aspectos ambientais e pessoais dentro de um determinado contexto de forma sistematizada. 

O PAPEL DA INOVAÇÃO NO CONTEXTO DA CRIATIVIDADE

De certa forma, a criatividade e a inovação são os recursos mais importantes para o sucesso (JONES e DEFILLIPI, 1996; MILLER e SHAMSIE, 1996 apud LAMPEL ET AL, 2009). Porém, tais recursos não são claramente definidos, surgindo de fontes inesperadas e perdendo seus valores por motivos não compreendidos. Segundo Lampel ET AL (2009), a criatividade é oriunda de pessoas cujo talento e os inputs só podem ser gerenciados e controlados até certo ponto, sendo um gerenciamento bem sucedido o encontro desse ponto e o estabelecimento de um equilíbrio entre os imperativos de liberdade criativa e os imperativos comerciais. 


No mundo do marketing, o processo de desenvolvimento de novos produtos começa a partir da busca por ideias. Assim, as maiores oportunidades são encontradas quando se descobre o melhor conjunto de necessidades não satisfeitas do cliente ou de inovações tecnológicas (Kotler, 2006). Ideias para novos produtos podem vir da interação entre vários grupos e da utilização de técnicas de estímulo à criatividade. Além disso, a alta gerencia pode ser vista como importante fonte de ideias. As ideias para novos produtos ou serviços costumam vir de diversas fontes e cabem aos líderes analisar e assumir o papel de defensores delas. Muitas das vezes, eles são responsáveis por promover um ambiente favorável às novas idéias e propostas vindas de diversas partes da organização. A busca pela inovação é o principal horizonte 
adotado pelas empresas hoje em dia. 

A inovação apareceu como uma característica que possibilita capacitar a criatividade através da oportunidade ou do desafio. Muitas das vezes, a inovação está voltada para a criação de algo novo ou aperfeiçoamento de algo que já existe, proporcionando algo de interesse para os outros. Ela é o meio em que muitos empreendedores exploram a situação de mudança como uma oportunidade de crescimento, a partir da criação de algo novo, diferente e ousado, tornando-o único.

Mas diferente da criatividade, a inovação pode ser definida como uma característica pessoal. Ela está ligada a capacidade do indivíduo em observar uma tendência antes de ela tornar pública, seja relacionado com algo novo ou algo já existente, criando ou aprimorando. O inovador tem a capacidade de criar e desenvolver algo totalmente novo agindo juntamente com suas capacidades gerenciais. Muitas vezes, a inovação pode vir por acaso, através de um evento que afeta o indivíduo ou seu ambiente, fazendo-o buscar meios para garantir sua sobrevivência. A partir disso, ele busca reconhecer as oportunidades e aproveitar a situação, conseguindo estabelecer metas por cima de um problema. A busca pela inovação é o principal horizonte adotado pelas empresas. Mas ao contrário de um inovador, uma pessoa criativa pode vir a criar algo novo, porém, por não possuir a capacidade de reconhecer as estruturas do ambiente, ele dificilmente conseguirá estabelecer qualquer nível de inovação.

Sendo assim, muito tem se discutido nas empresas sobre a colocação de profissionais com perfis empreendedores e inovadores para contribuírem e promoverem o desenvolvimento organizacional, destacando a visão estratégica, o conhecimento e a capacidade de gerir projetos como se fosse um novo negócio. Antes um conceito de novidade, a inovação tem sido vista como uma característica pessoal ou organizacional desenvolvida a partir da combinação de criatividade com conhecimentos gerenciais. Todas as organizações buscam e necessitam desse modelo para atuar nas constantes mudanças de mercado completamente instável. 

A INFLUÊNCIA DA CRIATIVIDADE NO PROCESSO DECISÓRIO

A criatividade nos possibilita uma melhor convivência em nosso ambiente, a perceber os acontecimentos de forma peculiar e a buscar soluções para nossos problemas, tanto pessoais quanto profissionais quanto pessoais. Segundo Severo ET al (2003), problemas enfrentados pelas organizações no atual quadro econômico e comercial já não consideram aplicáveis as soluções anteriormente utilizadas, tornando necessário o desenvolvimento da criatividade na busca da diferenciação profissional e organizacional. 


Em todas as empresas, desde o âmbito micro e pequenas até as grandes empresas, a influência da experiência pessoal dos profissionais no processo decisório é perceptível. Antes de qualquer decisão, diversos aspectos da vida pessoal ou profissional do tomador são avaliados por ele como um parâmetro de escolhas e decisões para estabelecer determinado comportamento. Sendo assim, muita das vezes o emocional possibilita ao tomador a utilização da criatividade como forma de avaliar decisões complexas. Muitas vezes, os recursos necessários não estão disponíveis e a melhor alternativa para encontrar uma solução ou contornar um problema pode ser estabelecida a partir da criatividade. Por isso, muitas empresas incentivam o desenvolvimento da criatividade como forma de capacitar seus gestores e profissionais a conseguirem respaldo em oportunidades, além de ameaças, em processos decisórios. Um profissional criativo consegue encontrar soluções de imediato e possibilita o sucesso da empresa a partir de suas ideias. 

Por mais que a criatividade se torna uma característica fundamental, muitos profissionais ainda fracassam por não serem capaz de promovê-la. Eles se “chocam” com normas rígidas e padrões de trabalho, deixando de lado a oportunidade em desenvolver algo novo ou promover algo totalmente inovador. Ficam completamente alheios às oportunidades que surgem no mercado. Na maioria dos casos, essa falta de criatividade está relacionada com bloqueios culturais oriundos de uma educação ou costume distinto. Sendo assim, estando as organizações cientes da influência da experiência pessoal no processo decisório,torna-se necessário o incentivo da criatividade e de uma visão mais holística e menos sistêmica do negócio por parte dos profissionais, possibilitando às organizações, a possibilidade de uma gestão menos racional e mais criativa. 

Segundo propõe Severo ET AL (2003), o emprego da criatividade como forma de efetivar a inovação para o desenvolvimento tecnológico da organização e de seus produtos, assim como soluções no gerenciamento de conflitos, mudanças, otimização de processos e recursos, é fundamental para o crescimento e sustentabilidade da organização. Ainda segundo Severo, Padilha e Matos (2003), o processo de tomada de decisão tem ocupado cada vez mais espaço nas rotinas de administradores, crescendo a necessidade de estudos científicos que tratam do tema. A tomada de decisão é hoje mais uma arte e menos uma ciência, devido não só a sua complexidade e incerteza, como também ao ritmo acelerado com que antigos modelos de tomada de decisão estão fracassando no atual cenário empresarial (PADILHA, 2003). 


Mesmo que seja importante conhecer as premissas da criatividade e necessário desenvolver essa habilidade como forma de capacitação, indaga-se se a criatividade é uma habilidade que pode ser desenvolvida pelo individuo ou uma característica própria oriunda de valores e crenças adquiridos no decorrer da vida. Podemos considerar que a criatividade é uma habilidade nascida com o individuo, tornando-a subjetiva e única. A avaliação da criatividade pode muitas vezes depender da forma como a sociedade interpreta tal criatividade, mas jamais deixará de existir a criatividade a partir do momento em que as ideias são desenvolvidas em sincronia com o cotidiano ou com as situações. Por isso, ela é uma característica contida em todas as pessoas e, simplesmente, são mais frequentes naqueles que a incentivam e buscam desenvolvê-la. Portanto, quando falamos em desenvolver a habilidade criativa, estamos falando em promover ou motivar aquilo que já temos em nossa consciência e que há muito tempo não foi desenvolvido. 

Quando buscamos promover nossa criatividade, muitos seminários e workshops utilizam de recursos coloridos e até brinquedos para que possamos posicionar em uma situação antiga e ser capaz de recuperar atitudes passadas. A partir da mudança de comportamento, passamos a entender que a criatividade pode ser extraída fora de nossa “zona de conforto” e obtida em outras dimensões. Por isso muitos artistas, musicistas, esportistas, alunos, professores, profissionais e até donas-de-casa são mais criativos e se destacam melhor em seus ambientes de trabalho. Portanto, a criatividade é tanto uma característica quanto uma capacidade a ser desenvolvida. Ela depende da motivação do individuo em capacitar-se e ser apto a desenvolvê-la em qualquer situação.

CONCLUSÕES

Ao avaliar a importância da criatividade no mundo empresarial, percebemos que ela exerce um papel primordial na condução do negócio e na tomada de decisão. Conforme citado anteriormente, muitas vezes os recursos não estarão disponíveis e os profissionais terão de desenvolver alternativas para não fracassarem. E Essas alternativas serão desenvolvidas somente através da criatividade, que tem sua importância visível desde os primórdios da humanidade. Por mais que sua influencia tenha sido vista como algo negativo por dogmas passados, muitas vezes foi considerada como uma habilidade divina influenciada pelo poder oriundo de Deus. 


Além da criatividade, a inovação hoje tem sido um tema bastante discutido em grandes escolas de negócios do mundo, sendo ela, juntamente com a criatividade, consideradas fatores cruciais de sucesso das organizações. Sendo assim, é importante perceber que hoje as formas padronizadas de resolução de problemas não são consideradas aplicáveis como antes. Atualmente as organizações precisam de criatividade para contornar obstáculos desconhecidos e obter sucesso. E por isso, é extremamente importante que a criatividade seja incentivada, garantindo o sucesso pessoal, profissional e organizacional. Além disso, hoje as empresas buscam profissionais empreendedores, criativos e motivados, capazes de observar oportunidades e desenvolver um método novo e criativo de gestão e execução das atividades.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
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